terça-feira, 6 de julho de 2010

FUTEBOL: Visão de quem conhece

“A camiseta celeste tem muita energia”

Em entrevista ao jornalista Gerhard Dilger, Eduardo Galeano fala sobre o Mundial de Futebol da África do Sul, o desempenho sulamericanos frente aos europeus e as chances de seu Uruguai. "Não sei se chegará á final, mas volta a ser milagrosamente certo que um país com menos habitantes que um bairro de Buenos Aires pode ser capaz de conquistar o troféu mundial. Festejamos isso, os poucos que somos, porque o Uruguai é um país muito futebolizado e aqui todos os bebês nascem gritando goooooool!!! A camiseta celeste tem muita energia dentro"

Em entrevista ao jornalista Gerhard Dilger, correspondente para a América do Sul do jornal "taz, die tageszeitung", de Berlim, Eduardo Galeano fala sobre o Mundial de Futebol da África do Sul, o desempenho sulamericanos frente aos europeus e as chances de seu Uruguai. "Não sei se chegará á final, mas volta a ser milagrosamente certo que um país com menos habitantes que um bairro de Buenos Aires pode ser capaz de conquistar o troféu mundial. Festejamos isso, os poucos que somos, porque o Uruguai é um país muito futebolizado e aqui todos os bebês nascem gritando goooooool!!! A camiseta celeste tem muita energia dentro", diz Galeano.

Dom Eduardo, quem será campeão deste mundial – e por quê?

Sou um péssimo profeta. E além disso, para completar, te confesso que não quero conhecer o futuro. Quando uma cigana pega a minha mão e me oferece lê-la, eu rogo: “Senhora, por favor, não seja cruel”. Eu não quero saber o que ocorrerá, nem sequer pressenti-lo, por que o melhor da vida está sempre esperando à volta da próxima esquina. E te acrescento algo mais: por sorte. Os prognósticos falham. O tempo brinca com quem pretende adivinhá-lo.

Qual sua opinião sobre a equipe alemã?

Assombrosa. Tem a força e a velocidade dos velhos tempos, mas uma elegância e uma alegria que talvez seja o aporte de tantos jovens incorporados em suas fileiras, em sua maioria imigrantes ou filhos de imigrantes. No futebol, como na vida, a mestiçagem melhora.

Por que os argentinos não conseguiram, finalmente?

Eles brilharam em várias partidas da Copa e agora se foram, humilhados por uma goleada. Isso me entristece, ainda que a vitória alemã tenha sido totalmente justa. Em que falhou a Argentina? Obviamente não cuidou do meio campo, faltou articulação entre a vanguarda e a retaguarda e Messi foi limpamente bloqueado, na boa lei, pela defesa alemã. Talvez isso tenha algo a ver com a “messidependência”. Quando há um jogador de qualidade tão extraordinária, inevitavelmente se produz uma realidade assim. De todos os modos, diga-se de passagem, Messi jogou, durante toda a Copa, muito melhor do que outra superestrela, Cristiano Ronaldo, que esteve no Mundial mas ninguém viu.

Pele disse que Maradona não é um bom técnico: Está de acordo?

No futebol atual, o treinador desempenha um trabalho insalubre. Altamente tóxico, eu diria: é o bode expiatório das derrotas, e o mesmo povo que o eleva aos céus, num momento, o expulsa para o inferno logo em seguida. Há alguns anos, as pessoas sequer sabiam qual era o nome do treinador, que depois passou a ser chamado de diretor técnico.

A grande maioria das estrelas sulamericanas está jogando na Europa. Há chances de que essa exportação de recursos futebolísticos seja revertida?


Não. Nós, dos países do sul do mundo, seguiremos exportando mão de obra e pé de obra para o norte do mundo.

Qual é o seu balanço do mundial, até agora?

Meu bom amigo Pacho Maturana, que foi diretor técnico de duas seleções e de várias equipes de diversos países ,costuma dizer, e não se equivoca: “O futebol é um reino mágico, onde tudo pode ocorrer”. Nós, latinoamericanos, estávamos felizes, pois pela primeira vez na história quatro seleções nossas chegavam à antepenúltima etapa e, subitamente, paf, ficou o Uruguai solito contra a Europa. E, salvo essa exceção,o Mundial se converteu em uma eurocopa. Um pouco antes, já não havia africanos competindo. Toda África ficou fora neste Mundial que é o primeiro Mundial africano da história. Os irmãos Boateng brindam a dramática metáfora do que ocorreu: um Boateng se foi, o que jogava em Gana, e ficou o Boateng que joga na Alemanha.

Foi justamente a Celeste que acabou com o sonho africano. Como viveu os momentos finais da partida contra Gana?

Foi um filme de Hitchcock. Me cortou a respiração. A minha e a de todos que assistiram à partida mais emocionante deste mundial. Ganhou o Uruguai, como se sabe, e assim ficou selada a derrota de toda a África. Eu festejei e, ao mesmo tempo, senti uma funda tristeza. No futebol, como na vida, há alegrias que doem.

O Brasil, com sua “receita Dunga” fracassou. Que conselho daria a seus vizinhos com vistas a 2014?

Eu não gosto de dar conselhos, nem de recebê-los, mas nós, latinoamericanos, não vamos bem quando copiamos as receitas do êxito europeu. Nem no futebol, nem em nada. E não precisamos copiar. Li e escutei várias vezes, a propósito desta seleção alemã, a que compete agora, o seguinte elogio: “Parece uma equipe sulamericana”. A receita Dunga não era a melhor para o mais sulamericano dos sulamericanos: de que estava doente o Brasil para precisar desse tipo de remédio?

E por que a seleção uruguaia está tão forte?

Por que acredita no que faz, e o entusiasmo compensa o que lhe falta. Não sei se chegará á final, mas volta a ser milagrosamente certo que um país com menos habitantes que um bairro de Buenos Aires pode ser capaz de conquistar o troféu mundial. Festejamos isso, os poucos que somos, porque o Uruguai é um país muito futebolizado e aqui todos os bebês nascem gritando goooooool!!! A camiseta celeste tem muita energia dentro. E a história também ajuda. Este nosso paisito soube ganhar duas Olimpíadas de futebol, quando o Mundial ainda nem existia, e dois campeonatos mundiais, o primeiro aqui em Montevidéu, e o de 1950, quando derrotamos o Brasil na estréia do maior estádio do mundo, o Maracanã, diante do rugido de duzentos mil torcedores.

Eduardo Galeano, 69 anos, é o autor de "El fútbol a sol y sombra" y de
"Espejos – Una historia casi universal".

Gerhard Dilger é correspondente para América del Sur do diário
"taz, die tageszeitung", de Berlim

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Saramago, depois de morto, ganha outro Nobel



Fecho de ouro numa vida dedicada a denunciar o delírio na realidade

Quem não gostaria de ser objeto do tribunal eclesiástico da Santa Sé?
Ainda bem que agora vibra apenas o seu martelo moral,
porque uma vez o sujeito ia direto para a fogueira, sem apelação.

Tomás de Torquemada morreu no ano de 1498. Pois, mesmo passados
cinco séculos suas práticas continuam vivas e aplicáveis, agora apenas
com fogueira moral do PC (partido católico) do Vaticano.

Mesmo assim, com a fogueira simbólica e tudo, o Vaticano carbonizou
sábado passado o recém falecido José Saramago. Antes de queimá-lo
apedrejou-o mil vezes com as pedras do ramerrão dogmático católico.

Saramago, morto, não pode se defender. Bela lição de cristandade
deixa a Igreja romana! Dos quase noventa anos de vida, Saramago
criticou duramente as religiões em mais de três longas décadas.
Silêncio. Morto, o vil tribunal resolve levantar suas objeções morais
esfarrapadas contra o grande pensador.

De qualquer forma, a vileza presente tem o sabor simbólico do seu
contrário. Sinto que estão premiando Saramago. E a energia cósmica
do grande escritor diverte-se, dá cambalhotas poéticas em alguma
estrela brilhante do páramo infinito.

Quem não gostaria de morrer e ser credenciado como o que sempre
denunciou a farsa da ilusão religiosa?

Já se vê que Saramago acaba de merecer mais um Prêmio Nobel, o
de ter ajudado a desconstituir o delírio na realidade que é a paranóia
religiosa. Convenhamos, que com as armas da literatura, tecendo textos
ditados pela imaginação, este escritor corajoso ajudou a minar a
institucionalidade material das religiões, com seus podres poderes
terrenos, suas aterrorizantes ameaças metafísicas, sua eterna depreciação
da vida, suas trágicas opções políticas, seus bancos endinheirados e suas
práticas de corrupção, violência física e simbólica contra crianças e jovens,
alienação generalizada e sobretudo por espalhar dogmas que dividem os
humanos ao invés de reconciliá-los em boa vontade e tolerância mútua.

Saramago agora - de fato - deve estar perfeitamente feliz.

Coisas da vida.

Foto: Viúva de Saramago, Pilar del Rio, olha para o corpo no funeral em
Lisboa ao lado da filha dele, Violante.
Fotografia de Rui Gaudêncio/Publico.pt

domingo, 20 de junho de 2010

Periscópio da Mídia

"Periscópio da Mídia - a indústria da comunicação social de cabeça para baixo" é um programa da Rádio Unisinos FM. - 103.3, transmitido todas as quintas-feiras, das 8h às 9h da noite, com reprise aos domingo, às 9h da noite. A boa desse programa é a análise feita dos enunciados emitidos pelas grandes corporações da mídia com ênfase nos telejornais e na mídia impressa. São debatidos assuntos de cunho acadêmico, havendo também a leitura de matérias nacionais e internacionais com eixo na Política, Economia e Mundo (principalmente da América Latina), comentários de livros e agenda de assuntos jornalísticos e culturais de relevância.

Por ser vinculado a uma rádio universitária, Periscópio da Mídia traz a presença de estudantes de pós-graduação, convidados e professores interessados, garantindo assim o espaço democrático para o debate e da boa polêmica jornalística. Sem falar em um detalhe muito importante: a rádio e seus programas não têm fins comercias, mas sim educativos.A coordenação é do Prof. Dr. Valério Cruz Brittos da Unisinos, tendo como titular o Prof. Dr. Bruno Lima Rocha e componente o mestrando Eduardo Menezes.

Os ouvintes podem entrar em contato através do email periscopiodamidia@gmail.com para envio de críticas e sugestões de pauta.

Então, fique ligado, esse é o link para você acompanhar a rádio Unisinos via internet http://www.unisinos.br/radio/index.php?option=com_content&task=view&id=64&Itemid=141&menu_ativo=active_menu_sub&marcador=141

Abraços, Jana.

sábado, 19 de junho de 2010

A PAUTA DO DESESPERO

Vendas de caminhões crescem 90% até maio; projeções do BNDES para investimentos já ultrapassam previsões pré-crise; vendas de cimento crescem 18% no ano; 9 fábricas cimento estão sendo construídas pela Votorantim para atender as obras do PAC e do setor habitacional; 39 shoppings centers estão em construção no país; 93% das categorias pesquisadas pelo Dieese tiveram aumento real de salário no ano passado... É sob esse arcabouço que deve ser analisada a desesperada tentativa da Folha de SP de dar vida a um natimorto enredo de arapongas & dossiês para atingir a candidatura Dilma Rousseff. A Folha, como se sabe, é aquele veículo que falsificou uma ficha policial contra a então ministra Dilma Rousseff em manipulação rudimentar de cola & xerox atestada por peritos da Unicamp. A pauta de dossiês & arapongas inclui-se nessa receita de remendos grosseiros adotada por uma redação que já não pode cobrir fatos políticos relevantes sem cometer um harakiri editorial. Silenciam os jornalistas da família Frias diante da acelerada voçoroca que corrói o chão da candidatura Serra, minada por disputas terminais para escolha do vice, que DEMOS reivindicam como condição para se manter na aliança, bem como diante da sangria desatada em Minas, o 2º colégio eleitoral do país, onde florescem diferentes modalidades de voto anti-serra (Dilmasia; Pimentésio...) , sem esquecer o derretimento do demotucano no 3º colégio eleitoral,o Rio, onde o namoro de Serra com o PV virou novela de traições & rupturas. O desespero da Folha é o mesmo que inspirou o script constrangedor da propaganda eleitoral antecipada do PSDB, no horário gratuito na última 5º feira. Aspas para um trecho síntese da narrativa ‘popular adotada pelo programa: ‘...Zé Serra é um sujeito simples, de bem com a vida, de bem com seu povo...' Em seguida, numa cena de rua, o próprio Serra confirma: "Como tudo com pão'.

(Carta Maior e o pulso da candidatura anti-Lula e anti-Dilma; 19-06)

Saramago nos eternos campos de caça


Ave, Saramago. Que não descanses em paz, mas que continues, na tua e na nossa memória, a luta pela boa literatura, a liberdade e um mundo com menos injustiças que este nosso.

Publicado originalmente no blog do Velho Mundo, da Rede Brasil Atual

José Saramago (1922 – 2010), que devia seu nome a uma erva cujas folhas têm vaga semelhança com as do espinafre, e a raiz com a de um pequeno nabo, comum em Portugal, rumou para a eternidade.

Onde estará? Tenho um palpite.

Os nativos do pampa, como os tehuelche e outros povos terminados em Che, tinham uma visão cosmogônica muito peculiar. Para eles o universo tinha o formato de uma foice, ou algo parecido. Havia a terra plana, que subia pelo Ande (assim no singular) até as geleiras e daí o céu. A Via-Láctea dos astrônomos continuava os cumes gelados, num novo pampa, só que estelar, e em direção à nossa Constelação do Cruzeiro do Sul. A cruz sideral era, na verdade, uma ema que sangrava, e as estrelas eram a esteira e as gotas do seu sangue. Para esse campo estelar iam os homens, que ficavam a eternidade na caça dessa ema pulsante.

E as mulheres? Essas, finalmente, descansavam, deitadas na terra, sem que ninguém as incomodasse.

Pois acho que Saramago deve ter partido para algum lugar assim, ou parecido. Talvez algum outro campo de caça dos povos africanos. Afinal, se em vida, ele partilhou das lutas pela liberdade desses e de outros povos, por que não iria compartilhar com eles a sua eternidade.

No seu último livro, Caim, esse personagem termina suas andanças cíclicas pelo espaço e tempo terrenos, depois de exterminar todos os tripulantes da Arca de Noé, numa querela interminável com Deus, que promete ser eterna. Sobre o vazio do mundo despovoado, e de uma criação abortada, os dois titãs, o que criava e descriava mundos e o que criava e descriava caminhos e descaminhos, se engalfinham numa luta de palavras que mostra, na verdade, que o mundo, se queremos lutar por sua melhora, deve estar em algum outro lugar. Aqui entre nós, talvez: esse parece ser o estro inspirador da literatura de Saramago e da herança que nos deixa.

Caim, confesso, não é dos meus preferidos. Esses são Memorial do Convento, Jangada de pedra, Ensaio sobre a cegueira, O Evangelho segundo Jesus Cristo. Mas li-o já antevendo nele uma espécie de testamento do escritor, de última palavra de um ateu convicto perseguido por imagens cristãs e religiosas também convictas. De certo modo isso é muito representativo dos mundos espirituais de muitos escritores portugueses que são a “esteira estelar” que acompanha Saramago em sua última e derradeira viagem pela e para a liberdade.

Não sei se Saramago estaria de acordo com essa minha visão, pondo-o em alguma outra eternidade. Mas se por acaso ele lá estiver, tenho a certeza (para homenagear o modo de falar português) de que ele já estará escrevendo histórias para seus companheiros de caça, para acordar as mulheres de seu merecido mas quieto sono, tentando convencê-los a deixar os céus para a Ema Sagrada, para parar de importuná-la, e para descerem de novo à terra e lutarem pelo “reino deste mundo”, que é título de um romance de Carpentier sobre o Haiti. País para quem ele doou a renda de um de seus últimos livros.

Ave, Saramago. Que não descanses em paz, mas que continues, na tua e na nossa memória, a luta pela boa literatura, a liberdade e um mundo com menos injustiças que este nosso.


Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Não verás Lula nenhum


Do blog Brasília, eu vi (Leandro Fortes)

Em linhas gerais, Luís Fernando Veríssimo disse, em artigo recente, que as gerações futuras de historiadores terão enorme dificuldade para compreender a razão de, no presente que se apresenta, um presidente da República tão popular como Luiz Inácio Lula da Silva ser alvo de uma campanha permanente de oposição e desconstrução por parte da mídia brasileira. Em suma, Veríssimo colocou em perspectiva histórica uma questão que, distante no tempo, contará com a vantagem de poder ser discutida a frio, mas nem por isso deixará de ser, talvez, o ponto de análise mais intrigante da vida política do Brasil da primeira década do século XXI.

A reação da velha mídia nativa ao acordo nuclear do Irã, costurado pelas diplomacias brasileira e turca chega a ser cômica, mas revela, antes de tudo, o despreparo da classe dirigente brasileira em interpretar a força histórica do momento e suas conseqüências para a consolidação daquilo que se anuncia, finalmente, como civilização brasileira.

O claro ressentimento da velha guarda midiática com o sucesso de Lula e do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, deixou de ser um fenômeno de ocasião, até então norteado por opções ideológicas, para descambar na inveja pura, quando não naquilo que sempre foi: um ódio de classe cada vez menos disfarçado, fruto de uma incompreensão histórica que só pode ser justificada pelo distanciamento dos donos da mídia em relação ao mundo real, e da disponib ilidade quase infinita de seus jornalistas para fazer, literalmente, qualquer trabalho que lhe mandarem os chefes e patrões, na vã esperança de um dia ser igual a eles.

Assim, enquanto a imprensa mundial se dedica a decodificar as engrenagens e circunstâncias que fizeram de Lula o mais importante líder mundial desse final de década, a imprensa brasileira se debate em como destituí-lo de toda glória, de reduzí-lo a um analfabeto funcional premiado pela sorte, a um manipulador de massas movido por programas de bolsas e incentivos, a um demagogo de fala mansa que esconde pretensões autoritárias disfarçadas, aqui e ali, de boas intenções populares. Tenta, portanto, converter a verdade atual em mentiras de registro, como se fosse possível enganar o futuro com notícias de jornal.

Destituídos de poder e credibilidade, os barões dessa mídia decadente e anciã se lançaram nessa missão suicida quando poderiam, simplesmente, ter se dedicado a fazer bom jornalismo, crítico e construtivo. Têm dinheiro e pessoal qualificado para tal. Ao invés disso, dedicaram-se a escrever para si mesmos, a se retroalimentar de preconceitos e maledicências, a pintarem o mundo a partir da imagem projetada pela classe média brasileira, uma gente quase que integralmente iletrada e apavorada, um exército de reginas duartes prestes a ter um ataque de nervos toda vez que um negro é admitido na universidade por meio de uma cota racial.

Ainda assim, paradoxalmente, uma massa beneficiada pelo crescimento econômico, mas escrava da própria indigência intelectual.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Para estufar este filó

“Chéri à Paris”, por Daniel Cariello | Foto: Mauro Cardoso

Um dia, o telefone toca.

- Daniel, vai fazer o quê quarta-feira que vem, ali pelas três da tarde?

Como todo cara que tem tempo livre à beça, sempre acho que não tenho nenhum.

- Putz, tenho dentista.
- Mas você tinha me falado que o dentista era na sexta.
- Pois é, mas na quarta já começa a preparação espiritual, sabe?
- Bom, então tá. Vou arrumar outra pessoa pra pelada com o Chico Buarque.

Deu um “tchuns” na minha cabeça, seguindo de um “tchans” e de um “ziriguidum”. Achei que tava ficando doido.

- Cumequié? Futebol com o Chico Buarque?
- Isso, aquela pelada que tinha te falado. Tem uma vaga sobrando. Mas vou ligar pro…
- Vai ligar pra ninguém coisa nenhuma. Quarta-feira tô lá.

E só aí me lembrei, havia bem uns oito anos que não chutava uma bola. Desde que o Felipão cometera duas injustiças, e não convocara o Romário e eu para a Copa de 2002. Ali decidi pendurar o Kichute e tentar esportes menos frustrantes, como corrida de pombos e arremesso de atum.

Pois bem. Na quarta-feira, no bat-local e na bat-hora marcados, já havia algumas pessoas, mas nada do Chico. Deve chegar de helicóptero, tipo o Papai Noel no Maracanã, pensei. Ou então com batedores da polícia abrindo caminho, ou de barco pelo… No meio do meu devaneio, alguém me cutuca e apresenta um sujeito de short e chuteira, pronto pro jogo.

- Daniel Cariello, Chico Buarque. Chico Buarque, Daniel Cariello.

Eu havia pensado em várias coisas para dizer nesse momento, imaginado todas as possibilidades. Tinha preparado piadas, frases inteligentes, postura blasé, citações de Platão e o escambau. Uma delas, a boa, seria acionada na hora das apresentações. Só não havia previsto o imprevisto. E acabei dizendo a coisa mais estúpida.

- Chico Buarque? Acho que já ouvi falar…

Que imbecil eu sou, falei pra mim mesmo. Cretino, cretino!

Enquanto me recuperava, as equipes foram divididas, seis de cada lado, e ficamos em times opostos. Logo alguém passa a bola para o Chico, que vem em minha direção.

- Vai lá, Daniel.
- Eu? E faço o quê?
- Marca em cima.
- Uai, e pode?

Podia. E fui. Tomei a bola.

- Desculpa, foi sem querer.

Não sei se era perseguição pelas idiotices que eu havia falado, mas ele vinha atacando sempre pelo meu lado. Ou seja, eu precisava marcá-lo, era minha tarefa. E se eu fizesse uma entrada mais dura? Já imaginava as manchetes dos jornais – todos os jornais – do dia seguinte: “Campeão mundial da idiotice quebra Chico Buarque em partida de futebol. Músico nunca mais poderá tocar violão”.

- Ei, vamos trocar. Você fica na direita e eu na esquerda. Jogo melhor pelo lado de lá. – Propus a um companheiro de equipe, mentindo descaradamente, pois jogo igual, igualmente mal, em qualquer posição.

Imaginando que a partida não duraria mais do que 30 ou 40 minutos, dei pra correr tudo o que podia. Alguns elogiaram minha capacidade de me desmarcar, mas mal sabem eles que fugia era da bola. E ela, teimosamente, sempre acabava nos meus pés. Acabava mesmo, pois qualquer possibilidade de jogada morria ali.

Mas aí passa uma hora, uma hora e vinte, e nem sinal do fim do jogo. E enquanto Chico Buarque deslizava feito uma gazela, eu não tinha mais força nem pra ficar em pé. Mas apesar de mim o placar nos era favorável: 5 x 4.

- Quando termina? – Perguntei.
- Quando a gente estiver ganhando – Alguém do outro time respondeu.

Achei o critério justo. E juntei as últimas energias para “dar o melhor de si e ajudar a equipe”. A equipe deles, no caso. E logo em seguida Chico marcou o gol de empate.

- Bom, vamos parar, né? – Ele mesmo sugeriu. E ninguém discordou.

Pronto! A invencibilidade do Paristheama, a filial francesa do Politheama, estava assegurada. Se a minha vaga na pelada também estiver, vou fazer sempre o meu melhor para isso se manter. Não importa em que equipe jogue.


Daniel Cariello
, editor de Brazuca e co-autor da entrevista, é colaborador regular da Biblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro.